Quatro anos de infâmia

O conflito no Irão continua e sem ideia de quanto tempo irá durar. Não muito longe está a Ucrânia, que já completou quatro anos e não tem perspectivas de se resolver a curto prazo. Com o foco agora apontado para o Médio Oriente, cresce o temor de que a “guerra” da Ucrânia fique marginalizada. Os quatro anos de invasão provocaram o deslocamento interno de mais de 3,7 milhões de pessoas e obrigaram mais de 5 milhões a sair do país até dezembro de 2025. Segundo a ACNUR, cerca de 12,7 milhões de pessoas precisam, neste momento, de ajuda humanitária. E segundo a Amnistia Internacional, o último ano foi o mais devastador para a população civil desde 2022. Atravessados pelo inverno mais rigoroso, com temperaturas diurnas em torno de -16 °C e noturnas de até -20 °C, os ucranianos sofreram ataques aéreos e a destruição de infraestruturas civis e energéticas que deixaram lares, escolas e hospitais sem eletricidade, aquecimento ou água.

Mais de 3,3 milhões de crianças da Ucrânia estão a crescer marcadas pela violência da guerra. A educação escolar interrompida. Muitos reformados não conseguem comprar lenha para se aquecer. O transporte público só funciona duas vezes por semana. As ONG esforçam-se para criar espaços seguros de apoio emocional para todos através de clínicas móveis que garantem serviços médicos e psicológicos em zonas de difícil acesso próximas à linha de combate. E o custo mais difícil de digerir, as baixas. Os dados estimados, embora não confirmados pela Ucrânia, do Center for Strategic and International Studies, com sede em Washington, apontam que os ucranianos teriam sofrido nestes quatro anos entre 500.000-600.000 baixas, com 100.000-140.000 mortos. Além disso, as vítimas russas: 1,2 milhões de baixas, com entre 275.000 e 325.000 mortos...

Se o conflito no Médio Oriente se prolongar mais do que o previsto, avizinha-se uma crise humanitária que devastará exclusivamente a população iraniana, a mais vulnerável entre todos os actores deste episódio. Um novo desastre que se sobreporá ao da Ucrânia, o de Gaza... Quantos mais espelhos precisa o ser humano para não repetir a infâmia? ♦

Julia Pastor
Conta com uma ampla experiência em redação na Consejeros. Anteriormente, trabalhou para a agência de notícias financeiras GBA e colaborou no El País Business. É licenciada em Inglês pela Universidade Complutense de Madrid e possui um mestrado em Jornalismo Financeiro.

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