Educação financeira: que o custo não determine o acesso

Falar de educação financeira costuma levar-nos à poupança, ao investimento, ao endividamento ou ao planeamento. No entanto, há uma questão anterior a todas elas que merece atenção: quem tem acesso ao conhecimento financeiro e em que condições pode adquiri-lo.

Num economia cada vez mais complexa, entender as finanças já não é uma competência reservada a especialistas: ajuda a interpretar melhor o ambiente, tomar decisões com maior critério e desenvencilhar-se com mais autonomia perante questões que afetam tanto a vida pessoal como a profissional.

No mercado de trabalho, esta necessidade é ainda mais evidente. O setor financeiro atravessa uma transformação constante, impulsionada pelas mudanças regulamentares, pela tecnologia e pela aparição de novas áreas de especialização. Neste contexto, atualizar conhecimentos deixou de ser unicamente uma vantagem competitiva: em muitos casos tornou-se uma condição necessária para manter a empregabilidade.

A formação contínua acompanha hoje praticamente toda a trajetória profissional. A precisam aqueles que buscam a sua primeira oportunidade, mas também aqueles que querem especializar-se, adquirir novas competências ou reorientar a sua carreira depois de anos de experiência. O verdadeiro desafio, portanto, não é identificar quem precisa continuar a formar-se, mas garantir que aqueles que querem fazê-lo tenham a oportunidade de aceder a uma formação de qualidade, rigorosa e capaz de aportar um valor real ao seu desenvolvimento profissional.

O custo de uma formação deste tipo pode tornar-se uma barreira para os jovens que começam a sua carreira e também para profissionais que precisam de continuar a avançar nela. E quando o acesso ao conhecimento depende em excesso dos recursos disponíveis, existe o risco de deixar fora talento, esforço e vocações que poderiam aportar muito valor ao setor.

É aí que as bolsas adquirem uma dimensão que vai mais além da ajuda económica. Não se trata unicamente de financiar uma matrícula. Trata-se de reduzir barreiras e ampliar as possibilidades de acesso a uma formação que pode ter um impacto direto sobre a trajetória profissional de uma pessoa.

A experiência da Fundação de Estudos Financeiros e da Escola FEF permite observar essa realidade de perto. Entre 2022 e setembro de 2026 foram destinados cerca de 85.000 euros a ajudas para formação económico-financeira. Em 2024 e 2025, o montante superou conjuntamente os 46.000 euros, e até setembro de 2026 foram concedidos outros 21.846 euros.

Também é interessante a análise de que formações buscam aqueles que solicitam estas ajudas. A análise financeira, a gestão patrimonial e o aconselhamento continuam a concentrar uma parte importante da demanda, enquanto ganham espaço disciplinas vinculadas à sustentabilidade, aos investimentos alternativos, aos ativos digitais ou às ferramentas quantitativas aplicadas aos mercados. É uma fotografia bastante fiel da evolução do setor.

Uma bolsa não corrige por si só as desigualdades educativas nem garante uma carreira profissional, mas pode eliminar uma barreira muito concreta: pode facilitar o acesso a uma certificação, permitir adquirir uma especialidade demandada pelo mercado ou abrir uma oportunidade profissional que, de outro modo, resultaria mais difícil de alcançar.

Esta reflexão transcende, além disso, o próprio setor financeiro.

A formação financeira não deve ser património exclusivo de quem trabalha nos mercados ou gere ativos em grandes entidades: contar com uns conhecimentos básicos é cada vez mais necessário para qualquer cidadão.

Uma sociedade com maior cultura financeira está melhor preparada para enfrentar decisões que afetam diretamente o seu bem-estar económico: quanto poupar, como gerir uma dívida, que riscos assumir, como valorar um investimento ou de que maneira planear o futuro. São decisões quotidianas, mas as suas consequências podem acompanhar-nos durante anos.

Por isso, avançar em educação financeira exige trabalhar em dois planos. Um é aproximar os conhecimentos básicos ao conjunto da cidadania. O outro é facilitar que aqueles que queiram aprofundar neles, especializar-se e convertê-los numa ferramenta profissional, encontrem possibilidades reais para fazê-lo.

Porque o conhecimento financeiro pode ampliar oportunidades. A questão é conseguir que a primeira delas seja poder aceder a esse conhecimento.

Maria Redondo
Diretora da Escola FEF Instituto Espanhol de Analistas

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