No número passado dávamos conta de vários relatórios de outras tantas organizações que nos alertam para o crescimento da desigualdade e da exclusão socioeconómica em Espanha. Com sinais de alto risco, destacava de maneira particular a taxa de pobreza infantil, em 29,2%, a mais alta de toda a UE e persistentemente elevada desde 2019. Este percentual traduz-se em 2,7 milhões de crianças e adolescentes em situação de precariedade. Na busca de respostas a um problema tão penoso, no país que hoje se considera a locomotiva europeia, a UNICEF tem contribuído com a sua parte. Num relatório recente, propõe uma bateria de medidas que incluem tanto transferências monetárias (uma prestação universal por criação de 100 e 200€ mensais, e um aumento do Rendimento Mínimo Vital de 20% e 40%), como novas políticas de emprego (um aumento de 20% do SMI e de 20% da intensidade laboral).
A de maior impacto, tanto pelo custo como pela viabilidade, seria a prestação universal por criação progressiva de 100 euros mensais, a qual, isolada do resto, poderia reduzir a pobreza infantil até 11,2% no nosso país, ou dito de outra maneira, tirar 270.000 menores da pobreza. Analisando em detalhe, é de supor que os números de pobreza infantil em Espanha contabilizem os 2.370 crianças que vivem na Cañada Real. Um assentamento ilegal, sim, o maior da Europa, com 15 quilómetros de comprimento, que também concentra uma das maiores bolsas de exclusão do país. Em Madrid, região capital de Espanha.
No ano de 2017, as administrações públicas e as forças políticas chegaram a um acordo sem precedentes para aplicar uma solução definitiva à zona, mas desde então apenas foram realizados realojamentos parciais. As famílias continuam a habitar maioritariamente em infraestruturas precárias, sem ruas asfaltadas, sem meios de transporte públicos, e nos últimos cinco anos sem eletricidade em dois dos seis setores que configuram o “bairro”. Cerca de 1.600 crianças da Cañada Real somam às suas dificuldades a pobreza energética. Em fevereiro deste ano, o Conselho da Europa concluiu que estes cortes de eletricidade infringem múltiplos elementos da Carta Social Europeia Revisada.♦